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HOSPITAL SEM DOR
DIRETRIZES PARA IMPLANTAÇÃO DA DOR
COMO 5º SINAL VITAL |
1 - INTRODUÇÃO
O controle da dor
e o
alívio
do
sofrimento
são
responsabilidade
e
compromisso do profissional da área de
saúde. Devido à falta de conhecimento
a respeito de doses eficazes, do tempo
de ação dos analgésicos, das técnicas
analgésicas
disponíveis,
dos
receios
quanto à depressão respiratória, vício,
entre outros fatores, há relatos na
literatura especializada de que a dor é
subtratada e é um sintoma freqüente
no ambiente hospitalar.
Doentes
com
câncer
freqüente mente vão a óbito sofrendo com dor
moderada ou intensa. A dor do
câncer é menos freqüente nas fases
iniciais da doença e é observada em
20%
a
50%
dos
casos
no
diagnóstico e em 70% a 90% dos
indivíduos com doença avançada.
Costuma ser intensa em 25% a 30%
dos
doentes
e
freqüentemente
manifesta-se
em mais de um local.
O inadequado alívio da dor no pós-
operatório,
apesar
das
suas
repercussões,
é
um
problema
permanente na prática clínica. Em
estudo sobre a avaliação de doentes
em
pós-operatório
de
cirurgia
cardíaca e abdominal, observou-se
que todos os doentes tinham algum
analgésico prescrito em regime “se
necessário”, mas cerca da metade
não o havia recebido. Os que haviam
recebido analgésico permaneceram
com dor.
O inadequado alívio da dor pós-
operatória, só na última década,
tem sido descrito no Brasil, mas há
muito é
citado
na
literatura
internacional. O
seu tratamento
parece ter evoluído pouco durante
os últimos anos, apesar
de 20 anos
de reconhecimento da inadequação
de seu tratamento, da introdução
de novos agentes e técnicas para o
tratamento
da
dor
aguda,
da
experiência crescente no controle
da dor nas unidades de
tratamento
específicas e dos anos da atuação
educacional sobre o problema da
dor
aguda
pela
Associação
Internacional para o Estudo da Dor.
O controle da dor é essencial para a
assistência
integral
ao
paciente.
Atualmente muito tem se discutido
sobre
a
qualidade
da
assistência
prestada nas instituições hospitalares.
Segundo Hortale, Obbadi & Ramos“
a qualidade passou a ser indispensável e
um
elemento
diferenciador
no
processo
de
atendimento
das
expectativas de clientes e usuários”.
Devido a sua prevalência,ênfase tem
se dado à melhoria da qualidade da
assistência ao paciente que sofre
com
a
dor
nas
instituições
hospitalares.
Com
foco
nessa
melhoria, indicadores e medidas que
buscam avaliar a
qualidade dos
serviços
prestados
vêm
se
desenvolvendo, como a avaliação e
o gerenciamento da dor.
A avaliação da dor e o registro
sistemático
e
periódico
de
sua
intensidade é fundamental para que
se
acompanhe
a
evolução
dos pacientes e se realize os ajustes
necessários
ao
tratamento.
A
melhoria
da
qualidade
e
a
humanização
do
atendimento
constituem-se
hoje
uma
busca
indispensável
para qualquer hospital
que
deseja alcançar um
padrão
mínimo que se adeqüe as práticas da
atualidade.
Ressalta-se o
reconhecimento do
gerenciamento da dor pela maior
agência acreditadora dos EUA - Joint
Commission
Accreditation
Healthcare Organization (JCAHO),
já
que o mesmo se faz necessário no
processo
de acreditação hospitalar.
Além da qualidade na assistência
há
de se ressaltar os benefícios no
manejo
da
dor
nas instituições
hospitalares. Ênfase deve ser dada
ao tratamento da dor, não só por
minimizar e eliminar o desconforto,
mas
também
por
facilitar
a
recuperação,
evitar efeitos colaterais
relacionados
ao
tratamento
e
promover tratamento com baixos custos,
prevenindo
complicações
advindas de sua ocorrência que
poderiam estar relacionadas com o
aumento da morbidade e aumento
do período de internação.
O tratamento da dor tem como
alicerce
a
monitorização padronizada, os protocolos para
uso de analgésicos e controle dos
efeitos colaterais,
e do treinamento
dos
profissionais
que
serão
responsáveis
pela analgesia.
2 - A DOR COMO 5º SINAL VITAL
A dor é um sintoma e uma das
causas mais freqüentes da procura
por auxílio médico.
A necessidade da dor ser reconhecida
como 5° sinal vital foi citada pela
primeira vez em 1996 por James
Campbell (Presidente da Sociedade
Americana de Dor). Seu objetivo foi de
elevar
a
conscientização
entre
os
profissionais
de
saúde
sobre
o
tratamento da dor. James Campbell
(1996) refere que “se a dor fosse
aliviada com o mesmo zelo como os
outros sinais vitais haveria uma melhor
chance
de
promover
tratamento
adequado”.
A avaliação da dor deve ser visível
nas instituições de saúde, assim o
seu registro juntamente com os
demais sinais vitais garantirá, na sua
vigência, imediata
intervenção e
reavaliações
subseqüentes.A
avaliação
da
dor
e
o
registro
sistemático
e
periódico
de
sua
intensidade é fundamental para que
se
acompanhe
a
evolução
dos
pacientes e se realize os ajustes
necessários
ao tratamento.
A inclusão da avaliação da dor junto
aos sinais vitais pode assegurar que
todos os pacientes tenham acesso às
intervenções para controle da dor da mesma forma que se dá o tratamento
imediato das alterações dos demais
controles.
Os
componentes
iniciais
dessa
iniciativa são:
• Adotar uma rotina de avaliação de
ocorrência e intensidade da dor
para todos os pacientes usando
uma escala
visual analógica (EVA);
• Documentar a ocorrência de dor e
de sua intensidade para todos os
doentes;
•
Documentar
as
intervenções
planejadas para o tratamento e
controle da dor, bem como o
período
determinado
para
a
reavaliação.
Dessa forma, faz-se necessário para a
implementação da dor como 5° sinal
vital nas instituições de saúde:
:
• Realizar um planejamento para o
seu
efetivo
desenvolvimento,
preferencialmente
designando
uma membro da equipe que fique
responsável pela coordenação da
implantação do 5° sinal vital;
• Estabelecer
um plano de ação com
prazos
e
designação de
responsáveis
para a sua implantação em todas as unidades da
instituição;
• Definir a folha de registro da
avaliação, intervenção e
reavaliação;
•·Definir o instrumento de avaliação
(EVA) que será utilizado;
•·Estabelecer normas e procedimentos
para avaliação e reavaliação da dor
para os pacientes em que a dor seja
identificada;
•·Educar a equipe de saúde quanto a
avaliação da dor (componentes de
uma avaliação, aplicação da EVA,
registro adequado e reavaliação)
e
seu
manejo
(intervenções
farmacológicas e não farmacológicas);
•·Desenvolver
um
plano
para
educação do
paciente e
seus
familiares quanto a avaliação e o
manejo da dor.
3 - AVALIANDO A DOR
A dor foi definida pela Associação
Internacional para o Estudo da Dor
(IASP)
como “uma
experiência
sensorial e emocional desagradável
que é associada a lesões reais ou
potenciais ou descrita em termos de
tais lesões. A dor é sempre subjetiva
e cada indivíduo aprende a utilizar
este
termo
por
meio
de
suas
experiências”.
A definição proposta demonstra a
multidimensionalidade da experiência
e que tanto aspectos físicos como
emocionais devem ser avaliados.
Devido
a
sua
subjetividade
McCaffery e Beebe definiram que a
dor “é o que o indivíduo que a sente
diz ser e existe quando a pessoa que
a sente diz existir”.
Os objetivos da avaliação da dor são:
IIdentificar
a
sua
etiologia
e
compreender a experiência sensorial,
afetiva, comportamental e cognitiva
do indivíduo com dor para propor e
implementar
o
seu
manejo.
No
entanto, apesar de sua fundamental
importância a dor ainda é avaliada inadequadamente.
Estudos
demonstram
que
as
enfermeiras
subestimam
a dor
pós-operatória
intensa.
IInicialmente o processo
de avaliação
deve incluir o histórico e exame
físico do paciente, bem como os
aspectos psicossociais e familiares
relacionados. A avaliação também
deve
envolver
os
componentes
sensoriais
da dor, porém deve-se
ter
em mente que o indivíduo que
vivencia a dor é o “expert” sobre o
seu padrão, localização,
intensidade
e natureza, bem como o grau de
alívio obtido pela terapia.
Devido à
subjetividade do sintoma o auto-
relato
será
fundamental
nesse
processo
de avaliação.
O padrão da dor é avaliado pelo uso
de palavras que descrevem o seu
ritmo. O paciente será questionado
se a dor é constante, intermitente
ou breve, e ainda sobre a data e
horário do seu início e quando foi oúltimo episódio.
A determinação da localização da dor pode auxiliar na determinação
de sua etiologia.
Na localização
pode ser utilizado um
diagrama
corpóreo,
para
que
o
paciente
demonstre,
assinalando
em
um
desenho, as áreas dolorosas (Figura
1). Outra forma, é o enfermeiro
questionar o
indivíduo sobre os locais do corpo que doem e realizar o
registro descritivo ou assinalar no
diagrama
de
localização.
Novos
locais
dolorosos
que
apareçam
devem ser registrados, porque pode
sinalizar uma
nova complicação.

A
intensidade da
dor
pode
ser
avaliada por meio de uma escala
visual analógica (EVA). Uma das
versões dessas escalas compreende
uma linha horizontal de 10 cm com
as extremidades indicando “ausência de dor” e “a pior dor possível”. Poderá ser determinado
um
valor numérico, utilizando-se
uma régua e medindo-se a distância
entre a marcação do indivíduo, que está sendo avaliado, e o extremo
inferior,
numa
escala
em
centímetros.
A
utilização
de
uma
EVA
por
crianças, idosos e pacientes com déficit visual e cognitivo pode ser
difícil pela ausência de qualquer
marcação na linha de 10 cm, que
seria um recurso de auxílio para a
avaliação.
Na avaliação da dor também podem
ser
utilizadas
escalas
como
a
numérica visual de 0 a 10,
que pode ou não estar associada a
uma escala verbal com quatro ou
cinco
descritores.
Os
descritores
serão apresentados
ao paciente para
que
ele
escolha
aquele
que
representa a intensidade da dor ou
do alívio no momento da avaliação.
A escala verbal mais utilizada em
nosso meio é a de quatro termos (dor
ausente,
leve,
moderada
e
intensa).
Outros instrumentos estão disponíveis para a avaliação da dor como as
escalas
de faces de sofrimento, que
podem ser úteis para pacientes que
apresentam
dificuldades
em
compreender
as
escalas
numéricas.
O fator mais importante na escolha de
qual instrumento deve ser usado é a
capacidade
do
paciente
para
compreendê-lo.
Assim,
os
instrumentos de avaliação devem ser adequados à
faixa
etária, à
capacidade cognitiva e aos aspectos
culturais dos indivíduos avaliados.
O prejuízo nas atividades de vida
diária
como:
sono,
apetite,
movimentação,
higiene
e
deambulação, bem como o humor,
também devem ser avaliados, pois
alterações
são
indicativos
do
desconforto causado pela dor e
auxiliam na avaliação da qualidade
da analgesia.
A identificação da natureza da dor
poderá
ser
definida
pelas
suas
características
utilizando-se
descri
tores
verbais.
Ao
paciente
será
solicitado que defina as palavras que
melhor caracterizam a sua dor. As
palavras escolhidas podem descrever
as diversas qualidades sensoriais e
emocionais da
dor
e
auxiliar
na
definição do tipo de dor, conforme
descrito por Bond 24 e demonstrado
no Quadro 1:

Parâmetros fisiológicos, tais como
alterações cardiovasculares (hipertensão e
taquicardia), freqüência
respiratória, saturação arterial de
oxigênio,
sudorese
e
alterações
metabólicas e hormonais, têm sido
utilizados
associados
ou
não
à
observação do
comportamento e
podem ser úteis no processo de
avaliação, já que na vigência de dor
aguda intensa, respostas
neurovegetativas oriundas da hiperatividade
simpática podem ocorrer.
As
respostas
comportamentais devem ser avaliadas
e podem incluir
respostas
verbais,
vocalizações,
expressões
faciais,
movimentos
corporais e reações
ao ambiente. As
manifestações
como
choro,
resmungo, gritos e proteção de
partes
do
corpo
sinalizam
sofrimento
e
complementam
a
avaliação do quadro 8. Ressalta-se
que
tais
manifestações
podem
variar entre os indivíduos, já que são
subjetivas.
4- FREQUÊNCIA E REGISTRO DA AVALIAÇÃO DA DOR
A freqüência de avaliação da dor é
um
aspecto
importante
da
implantação da dor como 5° sinal
vital e pode variar de acordo com o
cenário clínico.
Para pacientes internados a dor deve
ser
avaliada
na
admissão,
juntamente com os outros sinais vitais e posteriormente de horário,
de acordo com a rotina da instituição
e as condições do paciente (pós-operatório imediato, pós-operatório
tardio, dor crônica, doentes fora de
possibilidade terapêutica em fase
avançada da doença, entre outras),
que podem determinar uma maior ou
menor
freqüência à
ser
estabelecida.
Rotinas para avaliação sistemática
da dor em ambulatórios, consul
tórios e no domicílio também podem
ser estabelecidas.
A
padronização
do
registro
de
avaliação é
fundamental
na
implantação da dor como 5° sinal
vital. O registro da avaliação pode se
dar no papel (impresso próprio) ou
realizado
eletronicamente
em
programas
de
computadores
específicos. É necessário
que seja demonstrado o
valor da intensidade da dor na hora da avaliação,
a intervenção adotada
e a intensidade da dor na hora da
reavaliação (Quadro 2). Os valores
que representam a intensidade da
dor também podem ser expressos
em gráfico (Figura 2), demonstrando
uma curva de melhora ou piora ou
ausência de dor, de acordo com
valores encontrados.


5 - CONSIDERAÇÕES FINAIS
A avaliação da dor como 5° sinal
vital deve ser integrada à prática
clínica,
com
uma
abordagem
dinâmica
e multidisciplinar.
Deverão
se
manter
avaliações
constantes, educação continuada e
manutenção
dos
princípios
de
qualidade total.
Segundo Novaes e Paganini (1994) “qualidade é um
processo dinâmico, ininterrupto e
de
exaustiva
e
permanente
atividade
de
identificação
de
falhas
nas
rotinas
e
procedimentos, que devem ser periodicamente revisados, atualizados e
difundidos, com participação da será empregado. O paciente deverá
ser reavaliado constantemente, pois
direção do hospital e de todos os
seus funcionários”.
A
avaliação
da
dor
deve
ser
sistemática e
registrada considerando-se
sua
multidimensionalidade, assim deve abordar os
aspectos sensoriais e
emocionais
que
a
permeiam
e
levar
em
consideração
a idade e a capacidade
de compreensão do paciente na
escolha do método de avaliação
que perder
de
vista os
direitos
dos
pacientes.
os reajustes das doses, as alterações
no tratamento e a posterior redução
e suspensão
da analgesia
dependerá
do seu resultado.
É indiscutível o bem estar físico e
emocional proporcionado pelo alívio
da dor e do sofrimento, o que exige
cada vez mais dos profissionais daárea de saúde competência técnica e
científica nessa área de atuação e
crença na assistência prestada sem perder
de
vista os
direitos
dos
pacientes.

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Janeiro, 2009
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